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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Romance, o filme




-dia dos namorados chegando e eu há 1049km de distância do meu.
isso me fez refletir muita coisa sobre rotina, distância e medo.
será possível realmente fazer duas coisas ao mesmo tempo?
será possível realmente fazer teatro e televisão ao mesmo tempo?
casar, ter filhos e ainda ser feliz?

sem dúvida, um dos melhores filmes que já assisti - e é brasileiro!

estou tão apaixonada por toda essa pós-modernidade deste que irei transcrever trechos dele pra postar aqui mais tarde
;D

segunda-feira, 30 de março de 2009

Terapia Sexual I



Uma dona de casa lê um artigo e descobre que sofre de uma disfunção orgástica, ou seja, incapacidade de alcançar o orgasmo nas relações sexuais. Um homem de negócios bem sucedido torna-se sexualmente impotente e não consegue descobrir qual a causa dessa disfunção. Para solucionar suas dificuldades sexuais a quem deveriam recorrer essas pessoas? Com certeza a um terapeuta sexual.

Há muito pouco tempo não existiam especialistas que pudessem tratar adequadamente os portadores de tais distúrbios. Muitos médicos chegam mesmo a evitar a abordagem franca de questões sexuais na prática clínica, por sentirem-se pouco à vontade nessa área específica de atuação profissional. Não é crítica, pois não existiam estudos sobre o assunto mesmo nas faculdades de medicina e este era tratado de forma muito superficial.

O Terapeuta Sexual é um profissional com treinamento específico para a abordagem de dificuldades sexuais. Na maioria das vezes, seja ele psicólogo ou médico, o terapeuta sexual tem condições de orientar os problemas emocionais que com freqüência estão ligados às disfunções sexuais.

Em muitos casos, as disfunções sexuais podem ter suas raízes em causas mais imediatas e mais simples, do nosso dia a dia, do stress contínuo, da ansiedade crescente e também por causas orgânicas, doenças que alteram a nossa resposta sexual. Muitos pacientes respondem rápida e favoravelmente aos métodos de tratamento planejados, eliminando os obstáculos ao funcionamento sexual normal e prazeroso.

A Terapia Sexual se propõe a eliminar a disfunção sexual do paciente e esta terapia utiliza exercícios sexuais de comunicação como parte essencial do tratamento. Evitamos o papel tradicional do médico de assumir a postura de autoritarismo e paternalismo. No entanto, é certo que ele tome parte ativa dirigindo, interpretando e determinando os objetivos do paciente.

O terapeuta atua, no casal, como facilitador do seu crescimento e de sua mudança caminhando para a melhora ou cura da disfunção sexual. Com freqüência o terapeuta participa ativamente nas reações dinâmicas que se estabelecem no casal, retirando-se de campo assim que possível devolvendo-lhes a responsabilidade.

Sabemos hoje que as disfunções sexuais são também reflexos de influências culturais e emocionais do que propriamente “doenças”.Antes de se confirmar um diagnóstico de disfunção sexual como impotência ou vaginismo, é essencial afastar a possibilidade de um distúrbio orgânico. Isto é realizado com exames físicos e complementares que confirmem ou esclareçam a doença.

É fundamental que haja a participação do (a) companheiro (a) do (a) paciente em tratamento, pois, toda disfunção sexual lhe repercute em maior ou menor grau. Se o tratamento for realizado apenas com a pessoa em quem se manifesta a disfunção, o outro parceiro pode destruir ou comprometer grande parte do esforço terapêutico por incompreensão da verdadeira natureza da dificuldade do casal.O fundamental na terapia sexual é estabelecer um relacionamento tranqüilo e mais afetivo entre o homem e a mulher.

Em resumo, o tratamento inicia-se com uma consulta individual e após com o casal, quando se explicam os processos e os objetivos do tratamento. Se o casal concordar iniciam-se sessões de terapia quando se recomenda a troca de carícias íntimas suaves e afetuosas para que os parceiros descubram naturalmente os chamados focos sensoriais um do outro (as regiões que mais se sente prazer). A linguagem do tato é reforçada por estímulos olfativos e visuais. O importante é o casal descobrir que a função sexual não é apenas expressão física. O tratamento evolui com exercícios e orientações sexuais que o casal realiza em casa. Ocorre uma aproximação intensa e cada um dos parceiros pode descobrir novas respostas sexuais próprias ou do outro, nunca antes percebidas. Como a comunicação dos parceiros em nível corporal melhora sensivelmente, o relacionamento torna-se mais espontâneo e a solução da disfunção sexual começa a aparecer.
Podemos concluir que quando o casal ou somente o paciente com sintomas se integra totalmente no tratamento, a terapia sexual dá excelentes resultados.

Dr. Celso Marzano
Urologista, Sexólogo e Terapeuta Sexual

quarta-feira, 25 de março de 2009

Perdida no tempo-espaço




"Esperança é algo que já não tenho mais. Voou do varal numa noite qualquer. O mesmo varal onde pendurei minha fé. Voou também. Nem vi. Venta muito por aqui. Nada fica firme por muito tempo. As roupas não secam, somem. Voam sei lá pra onde. Já não sei o que vestir quando me convidam. Por isso nunca aceito. Fico em casa com satisfação. Vou até o quintal e aproveito o tempo para estender fotos, passados, sonhos. Tudo no mesmo varal. Só pra tirar o mofo, tomar um ar. Mas sempre voam. Voam sei lá pra onde. E eu vou perdendo as peças da minha história. Uma por uma. Tudo que eu amo desaparece. O tempo voa enquanto espero. Estendo a vida num varal. Esperança já não há. Voou sei lá pra onde".

."sinto falta do nosso silêncio a dois" .

quinta-feira, 12 de março de 2009

Só, somente só


Queria ser parte da paisagem, mas avisto sozinha o mar vermelho. Somente eu mesma posso tirar a foto. Ondas e oceano. Eu só. Não! Só água..

Atire a primeira pedra quem jamais se sentiu só. E a segunda, quem, mesmo acompanhado, não esteve sozinho. “Somos companheiros da solidão do outro”, escreveu Oriah Mountain Dreamer.

Tenho pessoas em torno de mim por toda parte. Minha adorável – e excêntrica – família. Amigos queridos, tão amados. Colegas de trabalho, gente que admiro conhecendo pouco ou muito. Às vezes minha imaginação é tão ativa que acredito que até desencarnados estejam por perto! Atesto minha loucura. Mesmo assim, nada basta para que me sinta acompanhada. Dirijo em imensas, quase intransitáveis, avenidas. O trânsito parece um gigantesco estacionamento. Como eu posso me sentir sozinha aqui? Toda essa gente junta de um lado. E eu de outro. Essa sensação de estar só.

Poucos não foram os poetas que escreveram a respeito da solitude concatenada ao amor – ou à ausência dele. Olho os casais, depois da inebriante paixão, e não avisto mais que dois indivíduos sós, mas não isolados, compartilhando algo em comum – no melhor dos casos de um relacionamento. Duas partes inteiras que se formassem uma seriam reduzidas pela metade! Por outro ângulo, alguns pensadores viveram sozinhos por terem características intelectuais de tempos posteriores aos seus. Esses, como Leonardo da Vinci, sofreram de algo como solidão ideológica. Outros optaram por se isolar para encontrar Deus, como os monges retirantes. Em florestas e cavernas, buscam por outro. Também amam e estão sós. Assim, penso que talvez as poesias relatem a verdade. Por meio do amor eu me sinto só, ou tenho minha solidão acompanhada. No anonimato, esses monges têm outra forma de solidão que só pode ser curada com um entre todos – este que, ironicamente, está em todo lugar – ao contrário de mim, que me sinto só porque falta uma única pessoa, que aparentemente não pode ser encontrada em lugar algum!

Francamente, eu o que busco? Por que amor nenhum basta para preencher as lacunas que me induzem a pensar que sou só? Por que a compreensão ou simples aceitação dos que me dão ouvidos não pode destruir minha solidão? Por que desejo ser entendida plenamente e recuso o amor condicional? Por quê? Eu estou só, mesmo quando existe alguém por perto e sofro implorando por companhia. Então procuro distrações para que não me sinta assim. Ao mesmo tempo em que me distraio das sensações, me distraio também da vida. Abandono grande porção dela quando separo momentos agradáveis dos desagradáveis. Períodos que, com o toque da diversão, me fazem acreditar que sou feliz quando o máximo que consigo é ter momentos de entretenimento. Que tristeza! Eu quero me ocupar de mim. Bastar em mim sozinha, sem sentir-me só ou ser egoísta, e usufruir a presença do outro, sem projetar nele a injusta responsabilidade de me fazer feliz.

Se eu não sou feliz, nada pode me fazer feliz”, disse o mestre. Foi embora depois de olhar nos meus olhos para proferir: “Se você tem uma razão para me amar, eu não quero teu amor”. Ahh! Mas eu só sei amar por razões pontuais – e inconscientes. Vexatório, mas ele está certo. Meu racional induz ao que chamo de amor. As pessoas que se aproximam de mim são submetidas a um teste invisível de valores e preferências, e, se aprovadas, então fazem parte do meu círculo. Aí digo que amo meus amigos! Por favor, que fique claro, não somente eles... Posso amar também todas as crianças aidéticas africanas! Mas Deus me ajude a ser amorosa pelo sujeito que eu sei dos defeitos (somente características se eu pudesse não julgá-lo) ou os que ofendem minha família e desonram meus amigos. Não sou capaz de amar incondicionalmente, concluo, embora viva iludida querendo dito o sentimento dos demais. Cobro dos outros que me aceitem como sou. Mas eu o que faço? Como sou pequena e insignificante!

Aqueles poetas românticos tinham razão. Digitada tais linhas, falta amor na vida desta que sou – que nem sequer sabe o que amar significa. E que, na insanidade, acredita que, mesmo assim, sinceramente, ama todos os amigos e a família, assim como os deuses sobre todo o universo. Daí brota a solidão que se ramifica por cada e toda faceta de vida minha. As escrituras se provam certas novamente. Elas falam do amor incondicional que nada sei a respeito e atestam que a ignorância é a raiz de todos os males, inclusive da solidão.

Somente água

Com maestria no Vedanta, ele me diz que me ama simplesmente porque realizou que si próprio é o amor. Diz para mim que, quando estou só, e peço por Deus sem vê-Lo, Ele é a solidão. Complementa ensinando a verdade universal de que nada existe além Dele. Eu nada entendo. Ele fala sobre ondas, mar e oceano. Eu penso sozinha em toda aquela água.

Anos depois, em um retiro de ioga que participo só, em Ras Sudr, no Egito, próximo ao mar Vermelho, sou abduzida pela beleza do oceano relembrando as palavras que somente ali fizeram sentido. “Sofremos porque conscientizamos a onda durante toda a vida. Por esse prisma, questionamos o motivo pelo qual somos fortes ou fracos, grandes ou pequenos. Indagamos a respeito da praia que estamos, freqüentemente querendo estar em outras distantes. Durante nossa breve vida, não falta sofrimento. Em curtas vidas, nascemos e morremos sem viver. Em algum momento, descobrimos Deus, o mar! Rezamos para que o mar nos leve às praias que queremos e nos transforme em uma onda diferente da que somos. Um belo dia percebemos que a onda não está separada do mar. Nasce e morre nele.” Tive um sorriso no meu rosto por largo tempo. Finalmente não mais estava sozinha.

Ao encontrar a instrutora que coincidentemente tinha conhecido na Índia anos atrás, contei entusiasmadamente a experiência enquanto relatava minha falta de sabedoria ao sentir-me só. Mas ela me surpreende com um único comentário. “E você sabe que não é nem onda nem mar, não?” A pergunta me deixa intrigada. Ela então conclui: “Nada existe além de água”.

Como os grandes pensadores, sofro de solidão ideológica, mas, ao contrário deles, por falta de capacidade de compreensão. Ainda rezo para que o mar me abençoe. Mergulhada na água sinto a força do oceano, que é característica do volume da água em si. “Sozinha, Ele é tua solidão.” O mestre imortalizado em suas palavras. “Só água.” Entro no mar observando a onda acompanhada pelo mar. Sinto, então, a água alimentar minhas esperanças de realizar a vida além da forma de uma onda que penso ser; além do espaço do mar que interpreto estar sobre todas as coisas. Assim algo me conforta e a solidão parece existir somente neste holograma que os cientistas chamaram de universo e os hindus de maya. Essencialmente água. Só água.

.Patrícia Varella.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Deus?


Em um momento qualquer de dúvida eu me pergunto onde está Deus, que não O vejo. Se admitisse que estivesse presente, não negaria que muitas vezes não entenderia a coerência de seus planos

A voracidade dos meus pensamentos consome minha razão enquanto eu me engano pensando que é justamente esta entorpecida intelectualização que faz de mim um ser racional. Francamente, essa é só mais uma de minhas invenções! Não define minha inteligência ou minha consciência. Tristemente, somente as compromete quando minha sapiência não assimila fatos ou minha presença não absorve o tênue.

Sempre que questiono os acontecimentos que estão fora do meu alcance, subjetivamente atento que não confio na vida ou nos propósitos dela. Mas tenho o atrevimento de dizer tenho fé. Outra criação da minha mente. Se de fato tivesse essa crença cega no invisível eu jamais o contestaria. Obviamente isso nunca tira o meu direito de questionar minhas próprias ações. O que contesto é especificamente minha habilidade em desacreditar na justiça do resultado delas quando claramente não são da minha alçada. Ignorante da situação climática, por exemplo, eu martirizo minha plantação e não aceito as razões da natureza por não vingar minhas sementes.

Essa força que parece ser só um detalhe é na realidade o que dá o tom às cores que escolho para pintar meu mundo, é também, indiscutivelmente, o que rege os acontecimentos da minha vida, aqueles categorizados como destino. A tonalidade definida nessa química sutil de ações minhas e reações da vida transparece um relacionamento íntimo entre a existência e mim. Relação esta que nego impiedosamente ao dizer que sofro de solidão! Como poderia estar só se quem me nutre, não só me dá de comer, mas também opera toda a minha digestão até quando tento evitá-la com somatizações? A vida vence minhas travas e amarras, permitindo que eu a digira como se dissesse: “Urge-se viver!”.

O conhecimento disso, entretanto, não espelha compreensão, pois não reconheço a presença do divino em tudo e todos. Eu observo a vida julgando e condenando o sagrado e o diabólico como se algo fosse menor que o divinizado por aqueles acontecimentos, que, alheios à vontade de cada um, determinam toda uma colheita. Entenda que isso não diz que condutas amorais são regidas pela luz geralmente atribuída ao sublime.

Estas minhas colocações afirmam sim que, independente da ação ou intenção do ser, a vida age decorrente de um poder que lhe é conferido. Não somente meu coração bate, mas também o de pessoas que me são caras e queridas assim como o das que são indiferentes para mim. A vida é impessoal. Eu enfeito a realidade com minhas interpretações desnecessárias enquanto eventualmente procuro experiência sem viver, acumulando palavras sem prática pelo medo de sofrer. Se Deus rezasse o escutaria em oração: “Implora-se viver!”.

Quando eu não encontro o tal do deus, esqueço do evidente poder que faz as flores desabrocharem ou que coloca calor nos raios de sol, o próprio sopro dos ventos ou a consciência que possibilita o pensar, manifestando o pensador que somos. Quando essa breve realização desfaz meu mundo de convicções frágeis, meu falso telhado é destruído. “Ganho as estrelas”, como diz a sabedoria popular. Agora, já emocionada, noto envergonhada que o que penso não existir é debilidade minha. A lei da gravidade já estava em operação muito antes da descoberta de Newton sobre ela. Isso não invalida a força gravitacional, somente a percepção do homem. Sendo assim, Deus, simplesmente perdoa que não te encontre no óbvio evidente de todas as Tuas manifestações.

.Patrícia Varella.

domingo, 8 de março de 2009

Tomates Verdes Fritos


“Um filme simples, mas que encanta com sua simplicidade. ‘Tomates Verdes Fritos’ traz uma história sutil sobre amor e amizade, contada de uma forma bastante atraente. No entanto, nem todo tipo de público se deixará envolver pela produção.”

Baseado no livro de Fannie Flag, e dirigido com extrema sensibilidade, neste filme, questões como a discriminação racial, a violência doméstica, a liberdade, a terceira idade, e a recuperação da auto-estima, são tratadas sem exageros, mas com determinação.

Desnorteada e cansada da vida que levava, Evelyn Couch conhece, por acaso, num asilo para idosos, Ninny, uma carismática senhora, ávida por uma boa amizade e cheia de histórias e experiências para compartilhar. Ninny conta-lhe sobre a história de amor e amizade e cumplicidade entre duas mulheres datada do início dos anos 30, no Alabama, entre Idgie Threadgoode e Ruth Jamison. Não é uma trama explícita ou chocante, muito menos uma apologia direta ao homossexualismo, já que esse aspecto fica apenas subentendido. Elas haviam aproximado inicialmente em função do namoro entre Ruth e Buddy, o irmão mais velho de Idgie, objeto de adoração desta. A morte trágica e acidental de Buddy motivou Idgie a afastar-se de todos que lhe cercavam.

Anos depois, Ruth, a pedidos da mãe de Idgie, consegue aproximar-se desta, com persistência e tamanha doçura que ninguém teria alcançado, possivelmente este tenha sido o motivo que a fez galgar êxito em sua empreitada. Apesar de serem completamente diferentes, surge entre elas uma forte e profunda amizade, capaz de resistir ao tempo, às dificuldades e, até mesmo à morte. Ninny, uma excelente contadora de histórias, narra o drama vivido pelas amigas Idgie e Ruth um pouco a cada dia em que é visitada por Evelyn. A força de Ruth e a coragem de Idgie acabam tocando o coração de Evelyn, que descobre em si virtudes suficientes para mudar a sua realidade. O marasmo e o conformismo de outros tempos são definitivamente abandonados pela disposição sincera de alcançar, por si mesma, a felicidade.

O trunfo do filme, para quem assistiu e pode perceber, está no fato de desenvolver a história de uma forma bastante sutil. Independente do tipo de relação que Ruth e Idgie constroem, a ênfase é dada apenas ao sentimento que as une. Até mesmo a antipatia que as duas mulheres despertam em habitantes mais conservadores da cidade não está ligada ao fato das duas estarem juntas, mas sim por elas tratarem com igualdade todos os excluídos da sociedade de então.

A amizade de Ninny e Evelyn e a de Idgie e Ruth são exemplos de que nossos atos e palavras podem influenciar os outros, mas os únicos efetivamente responsáveis pelo nosso destino somos nós mesmos. Saber lidar com as perdas e afastamentos e continuar vivendo com dignidade e resignação; saber partir e saber realizar nossos verdadeiros desejos, eis aí as maiores lições que esse belo filme nos deixa. De quebra, ainda, há a questão do preconceito racial – intenso naquela região na época retratada – e o velho dilema do “saber envelhecer”.

“Tomates Verdes Fritos é na verdade dois filmes em um. O melhor está na mistura das aventuras doces e amargas das amigas Idgie e Ruth. Um drama sobre fortes, destemidas e engraçadas mulheres. Não é exatamente um sucesso híbrido, mas pode ser visto dessa forma, se você desejar.”
Rita Kempley – The Washington Post – 10/01/1992

FICHA TÉCNICA
Título Original: Fried Green Tomatoes
Ano: 1991
País de Origem: Estados Unidos
Idioma: Inglês
Duração: 125 min.
Trilha Sonora: Thomas Newman
Roteiro: Fannie Flag
Direção: Jon Avnet
Elenco: Kathy Bates; Mary Stuart Masterson; Marie-Louise Parker; Jessica Tandy; Gailard Sartain; Stan Shaw; Cicely Tyson

Como boa película é a coisa mais rara existente em extinção no meio dessa feira, segue o link
Tomates Verdes Fritos

sábado, 7 de março de 2009

cartas


Hery:

Que noite fria, meu Amor, está em que te escrevo! A chuva cae em bátegas ininterruptas e um vento áspero, cortante, envolve todas as cousas no seu abraço glacial. A minha pelle está quase gelada e os meus dedos endurecidos pelo frio, quase se recusam a escrever.
E comtudo a minha alma sente calor, o sangue corre nas minhas veias com ardências satânicas; o desejo se enrosca no meu corpo como uma serpente de fogo... E tudo isso porque li a tua carta! E que carta louca, meu Amor! Foi-me impossível, lel-a sem corar; um rubor de pejo subiu-me às faces e instintivamente levei a mão ao decote do meu vestido como para defendel-o de ser aberto por ti. Affigurou-se-me, não estar lendo uma carta tua e sim ter-te junto de mim; crê, meu Hery, que experimentei a sensação de ter os teus cincos dedos a apertar-me a carne numa carícia violentamente sensual. O leve contacto da roupa irritou-me a pele, deu-me a impressão de ser o contacto da tua mão nervosa e febril que me percorresse o collo num affago voluptoso. Se estivesses aqui e me fizesses uma carta assim impregnada de volúpia ardentíssima, eu, quando a lesse, não me atreveria a olhar-te. Imagina agora se essas cousas todas que me escreves se chegarem a realizar, como eu não terei vergonha de ti! Se nas minhas eu tenho usado de uma linguagem demasiadamente franca, (não quero dizer livre), é porque, quando te escrevo, deixo o pensamento seguir os impulsos da minha natureza sensual e vibrátil; é porque sei que o amor sincero é confiante e perdoa essas loucuras do coração e dos sentidos.
Eu e tu, moços, ardentes e apaixonados, por que havemos de negar que nos amamos, que nos queremos, que nos desejamos?
Ah! Meu amor, tudo o que eu sinto por ti, eu não sei esconder-te; prefiro dizer-te, ainda que me censures, às vezes, as sós comtigo.
Mas eu te amo tanto e vivo tão longe de ti! Que cousa triste e desesperadora, meu Hery!...
Por hoje, digo-te adeus e também que estou nervosa, febril...
Para que me escreveste aquellas palavras?
A minha bocca te beija.


Anayde.



Parahyba, 27 de Julho de 1926.

.Dinda, muito obrigada por compartilhar sua experiência ;]

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Quando você não está


Na sua ausência, me perco na liberdade que só a solidão pode oferecer. Dona de meus próprios domínios, sem você, deixo nascer a tirana que habita em mim

Você acaba de me dar um beijo e sair.É domingo e faz frio lá fora. Dia ideal para ser perdido entre chamegos, afagos, mimos, xícaras de café e, maistarde, taças de vinho. Mas não esse. Você precisa sair e vai demorar para voltar. E tá tudo bem porque, com você longe de mim,posso me entregar à leitura do jornal sem ser interrompida para responder se lembrei de pagar a conta de luz na sexta ou se pretendo ir à Cobasi comprar a ração dos cachorros – essa, mais uma imposição do que uma pergunta. Embora não pretenda ir, digo que vou para poder voltar ao jornalmais rapidamente. Tá tudo bem, porque é com você longe de mim que posso fazer um pouco mais de café sem ter que obedecer ao comando de desviar para ir apagar a luz do quarto que, tenho certeza, quem acendeu foi você e não eu. E posso, quando bem entender, ligar a TV e deixaro volume alto, mesmo que eu decida continuar na sala lendo o jornal: você não está por perto para fazer bico, para pedir que eu levante e abaixe o som ou, em casos extremos, para que eu simplesmente desligue o aparelho. Posso inclusive escolher deixar a TV desligada, por minha própria vontade, mas ligar o rádio para saber mais a respeito dos jogos da tarde; sem você por perto, não tem ninguém para reclamar de minhas manias.

Ditadura
Aliás, com você longe de mim, posso gritar para que as cachorras, esses dois quadrúpedes hiperativos que moram aqui, nem pensem em se aproximar do meu café ou do meu jornal porque agora sou eu quem controla essa área, sou dona exclusiva de meus domínios. Com você longe de mim, nasce a ditadura, morre a democracia e revela-se a tirana que habita em mim. Pelo menos sob o ponto de vista canino; ao meu comando autoritário, as duas cadelas imediatamente emitem um som de súplica e saem à sua procura, em busca de proteção; elas sabem que o papel do “policial ruim” é meu. Mas, naturalmente, voltam com o rabo entre as pernas porque, finalmente, perceberam o que eu já sei há quase uma hora: que você não está. Então, derrotadas, simplesmente deitam à espera do seu retorno. E nem dão bola para meu estado de espírito. Porque é quando você não está que posso deixar o cabelo preso como bem entender: você gosta dele solto, para poder mexer, bagunçar, despentear. Você tem essa mania de ficar com a mão no meu cabelo. Então, a primeira coisa que faço quando o portão da garagem se fecha é pegar o elástico e prender bem forte, quase uma provocação. Mas aí lembro que é uma provocação vã, porque você não está. Só que também lembro que, com você longe de mim, posso colocar aquela playlist que já tá gasta e que você não agüenta mais. E posso ficar deitada, olhando o teto e pensando na vida, sem ter que ir ver se a água quente já voltou. Com você longe de mim posso navegar pela internet à vontade, sem ter que, bem na hora que finalmente encontro a informação que procurava, contar como foi a visita que fiz à minha irmã, como estavam as crianças, como foi a festa ontem.

Cachorros no sofá

Com você longe de mim me perco nessa liberdade que só a solidão é capaz de oferecer. E então aumento o som, pego um livro e, sem que você veja, autorizo as cachorras a subirem no sofá, atitude que deixaria você muito feliz, porque você ama ter as duas por perto, ama ver o sofá cheio de pêlos, ama me ouvir mandar elas descerem. Mas você não está e eu, quando você não está, deixo as duas subirem. É uma provocação, mais uma. Porque quando você não está não existe o risco de ser parada no meio da sala, enquanto estou indo colocar mais café na xícara, com aquele abraço apertado e demorado, sempre cheio de más intenções. Quando você não está, não existe a possibilidade de ser tirada de meu cochilo com um beijo molhado na boca. Também não tem quem, sem aviso prévio, pegue meu pé para fazer massagem, ou quem me ofereça torrada com queijo e geléia no meio da manhã, me pergunte sobre o que estou lendo e queira ouvir a explicação, mesmo que seja sobre o assunto mais chato do mundo. Sem você por perto, não tem quem se interesse por minhas histórias cotidianas, quem ria de minhas piadas tolas, quem converse com as cachorras como se elas fossem crianças de 5 anos só para meu entretenimento. Quando você não está não tenho com quem comentar um trecho do livro a respeito do Almodóvar que li ontem, não tenho por que fazer um pouco mais de café ou para quem ir buscar um Yakult na geladeira. Quando você não está, falta um pouco de mim, falta toda a graça, falta metade da vida: quando você não está, parte de mim também vai embora. Então, quando ouço o portão da garagem abrir e vejo as cachorras correrem em euforia para recebê-la, sei que tudo está prestes a mudar. É quando você volta que sou mais feliz e posso, finalmente, soltar o cabelo.

.Milly Lacombe.

 
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